26/06/2026 10:41 - Economia
Durante pelo menos cinco meses, o carry trade foi a estratégia mais rentável do mercado financeiro argentino. Os investidores vendiam dólares, colocavam o dinheiro em pesos em Lecap (Letras do Tesouro), bônus CER ou depósitos a prazo fixo, e viam suas posições crescerem em moeda dura sem maiores sobressaltos. Mas esse filme teve um final abrupto em junho de 2026.
Para entender esta notícia, é importante saber que a Argentina possui múltiplos tipos de câmbio. O dólar contado con liqui subiu 4,4% nominal no que vai de junho de 2026. O dólar MEP (Mercado Eletrônico de Pagamentos) superou os $1.500 pesos, um nível não visto desde o final de 2025. O dólar blue (mercado paralelo) escalou mais de $100 pesos em junho, alcançando níveis próximos a $1.530 pesos, seu máximo do ano.
É uma estratégia financeira onde os investidores tomam empréstimo em uma moeda com taxas de juro baixas e investem em ativos denominados em outra moeda com taxas mais altas, ganhando a diferença. Na Argentina, isso implica vender dólares para colocar pesos em instrumentos de alta rentabilidade (Lecap: Letras do Tesouro Argentino; bônus CER: títulos indexados à inflação; prazo fixo: depósitos a prazo), apostando que a desvalorização do peso não supere o ganho pelas taxas de juro.
Dólar blue: Câmbio paralelo/informal, geralmente mais caro que o oficial. Dólar MEP: Câmbio legal operado através de bônus no mercado de valores. Contado con liqui: Similar ao MEP, usado para transferir fundos ao exterior. Dólar oficial: Câmbio regulado pelo governo, geralmente mais barato mas com restrições de acesso.
*Valores expressos em pesos argentinos (ARS). Para converter para reais ou dólares, considere que 1 USD ≈ 5 ARS em taxa oficial brasileira, mas na Argentina há grande diferença entre câmbios.
A economista Romina Cadario explica: "As Lecap e os bônus CER subiram entre 1,2% e 1,5% no mês, mas o MEP avançou mais de 4%, o que resulta em uma perda em dólares de quase 3%."
O Federal Reserve mantém uma postura restritiva com taxa de 3,75%, fortalecendo a moeda americana em nível mundial.
O fim da colheita agrícola reduz a entrada de dólares. O BCRA (Banco Central da República Argentina) reduziu compras diárias de USD 138 milhões (abril-maio) para USD 79 milhões (junho).
O pagamento do "aguinaldo" (décimo terceiro salário argentino) e o turismo pela Copa do Mundo 2026 impulsionam a compra de dólares para viagens aos Estados Unidos.
O analista financeiro Esteban Medina acrescenta: "A maior força global do dólar desde março de 2025 e a fraqueza generalizada de moedas emergentes pesam mais que qualquer variável local. A alta do tipo de câmbio não seria um sinal de desconfiança no programa econômico, mas um reacomodamento ante condições internacionais adversas."
Falar do "fim do carry trade" sem precisar desde quando se entrou é uma armadilha. Os ganhos acumulados em 2026 são muito diferentes segundo o momento de início:
| Momento de entrada | Resultado em dólares |
|---|---|
| Desde janeiro 2026 (bônus CER) | +18% ganho |
| Desde janeiro 2026 (Lecap) | +12% ganho |
| Inícios de junho 2026 | Perda líquida |
"Se o MEP supera o preço de início da estratégia, não é sinônimo de ter perdido, é uma redução do retorno", precisa Esteban Medina.
O Bank of America mantém uma visão construtiva sobre a Argentina. Seu informe titulado "Argentina – The Superior Carry Trade: Buy BONCER 2026 (TX26) – Hedge FX downside" recomenda o Boncer 2026 (TX26), calculando que a estratégia ainda gera um carry de 3,3% por trimestre, com uma volatilidade de 3,5%.
Cadario detalha: "O mercado está transitando uma rotação gradual desde instrumentos de taxa fixa em pesos para ativos dolarizados de curto prazo. Não é uma saída em debandada, mas uma reconfiguração de carteira."
Kevin Warsh, novo presidente do Federal Reserve, gerou uma mudança de regime na comunicação. Pela primeira vez em mais de uma década, o Fed terminou uma reunião sem dizer aos mercados o que planeja fazer.
O "dot plot" (mapa de projeções de taxas) de junho revela que 9 de 18 funcionários projetam ao menos uma alta de taxas no que resta de 2026. A probabilidade implícita de uma alta em dezembro supera 40% segundo CME FedWatch.
O carry trade não morreu, mas deixou de ser o negócio automático que muitos investidores pensavam que era. Quem apostou no peso em janeiro e manteve a posição ainda ganha em dólares. Quem entrou em junho, perdeu. Em um mercado onde a variável crítica é o tipo de câmbio, o momento de entrada vale tanto quanto o instrumento escolhido. A City (distrito financeiro) está olhando o dólar, não as taxas. E isso já diz tudo sobre como mudou o cenário.
Alfredo S. Quiroga