20/06/2026 12:31 - Economia
Planta moderna de producción de biocombustibles con silos de almacenamiento, tecnología de procesamiento de biodiésel y bioetanol, tuberías industriales, campos agrícolas de soja y maíz en el horizonte bajo cielo azul
O Senado da Nação Argentina se converteu no cenário de um debate que definirá o rumo energético do país vizinho para as próximas décadas. Em uma audiência pública conjunta das comissões de Orçamento e Mineração, Energia e Combustíveis, onze expositores apresentaram posições divergentes sobre seis projetos de lei que buscam atualizar o marco regulatório dos biocombustíveis, um tema que carrega 15 anos de discussões no Congresso argentino.
A voz mais escutada foi a de Mauricio Martín, diretor suplente de YPF SA e vice-presidente Executivo Midstream & Downstream, quem surpreendeu ao apoiar publicamente o projeto apresentado pela senadora libertária Patricia Bullrich. Entretanto, deixou uma advertência clara: um corte superior a 10% de biodiesel no diesel não é viável por limitações na cadeia logística e comercial.
"Não é uma limitação de vontade, mas sim na cadeia logística e comercial que deve ser levada em consideração", expressou Martín durante sua exposição.
YPF (Yacimientos Petrolíferos Fiscales) é a empresa petrolífera estatal argentina, criada em 1922 e privatizada nos anos 90, sendo hoje uma das maiores da América Latina. A empresa é um ator chave no mercado de combustíveis do país. Entender sua posição é fundamental para compreender o cenário energético regional.
A iniciativa impulsionada por Bullrich e outros seis senadores estabelece um régime com vigência de 15 anos e contempla os seguintes percentuais de mistura obrigatória:
| Combustível | Corte inicial | Corte após um ano |
|---|---|---|
| Biodiesel no diesel | 7,5% | 10% |
| Bioetanol na gasolina | 12% | 15% |
O projeto inclui exceções específicas para o uso de diesel em zonas frias da Patagônia (sul argentino), na mineração, nas centrais elétricas e nas operações na Antártida.
Em relação ao impacto no preço do combustível, Martín precisou que o corte atual de 7,5% representa 4,5% do que o consumidor paga. Levá-lo a 10% implicaria aproximadamente três pontos adicionais.
O contador Claudio Molina, principal impulsor dos biocombustíveis na Argentina durante este século, ofereceu uma perspectiva diametralmente oposta. Seu diagnóstico foi contundente: existe um fenômeno de "captura do regulador", onde os setores que deveriam ser regulados terminam condicionando o organismo que deve controlá-los.
Molina considerou que é "inconstitucional" a disposição da Lei 27.640 que proíbe a participação dos grandes traders da moagem de oleaginosas no mercado local de biodiesel. A lei vigente excluiu os grandes complexos oleosos integrados da possibilidade de abastecer o mercado obrigatório.
Quatro empresas explicam aproximadamente 94% do mercado de combustíveis líquidos na Argentina. Essa estrutura de alta concentração condiciona as decisões sobre biocombustíveis.
O especialista defendeu o projeto impulsionado por Alejandra Vigo, Camau Espínola e Carolina Moisés como o mais equilibrado, argumentando que alcançou um amplo consenso dentro da indústria e contempla mecanismos para que convivam distintos tipos de empresas, evitando processos bruscos de concentração econômica.
Um dos argumentos mais recorrentes contra os biocombustíveis é seu suposto custo fiscal. A Oficina de Orçamentos do Congresso argentino estabeleceu um custo fiscal para o projeto de Vigo de US$ 180 milhões.
No entanto, Molina contra-argumentou com uma cifra contundente: desde o último quadrimestre de 2019 até hoje, o Estado assumiu aproximadamente US$ 12.000 milhões (equivalente em pesos) pela postergação parcial ou total do ajuste trimestral por IPC-INDEC das alíquotas do imposto aos combustíveis e dióxido de carbono.
"Não resulta equânime plantear a questão do custo fiscal dos projetos de biocombustíveis nesta circunstância", assinalou Molina.
O debate gerou pronunciamentos cruzados. Por um lado, a Câmara Santafesina de Energias Renováveis assinalou uma "profunda contradição" entre os princípios de livre competição invocados pelo governo nacional e o tratamento regulatório proposto para o biodiesel, que expõe os produtores independentes a uma competição desigual.
Por outro lado, um comunicado conjunto do Centro Açucareiro Argentino, a Câmara de Bioetanol de Milho, Coninagro, Maizar, BioPyme e outras entidades, qualificou a iniciativa de Bullrich como "uma oportunidade estratégica para consolidar uma política energética moderna, federal e orientada ao crescimento produtivo".
Federico Pucciarello, CEO de Essential Energy, sustentou que é preciso buscar um projeto "de consenso" e assinalou que tanto o de Bullrich com aditivos e correções, como o de Santa Fé e o da senadora Royón podem ser melhorados para lograr o melhor resultado para o conjunto.
A atual Lei 27.640, sancionada em 2021 quando venceu a Lei 26.093, estabelece um conteúdo obrigatório de biodiesel no diesel de 7,5% teórico, embora na prática mal supere os 6%. Em alguns momentos de 2023, o corte efetivo não chegou aos 4%.
Para o bioetanol, o conteúdo obrigatório é de 12%, distribuído equitativamente entre etanol de cana de açúcar e etanol de milho. Quando uma das duas indústrias não pode abastecer completamente sua oferta, a outra compensa a diferença.
O ano de 2021 foi particularmente conflitivo: o corte obrigatório de biodiesel foi reduzido de 10% para 5%, e quando se produziu uma crise de abastecimento de diesel em 2022, o governo teve que elevá-lo a 7,5% e habilitar cortes transitórios de até 12,5%.
Corte de biodiesel/bioetanol: É a mistura obrigatória de combustível renovável (biodiesel ou bioetanol) com combustível fóssil (diesel ou gasolina). Por exemplo, um corte de 10% significa que cada litro de diesel comercializado contém 10% de biodiesel.
Molina sintetizou a importância do debate: "O que está em jogo é o modelo energético das próximas décadas". A Argentina tem a possibilidade de construir uma estratégia que combine desenvolvimento agroindustrial, geração de emprego, redução de emissões, melhoria da qualidade do ar e fortalecimento das economias regionais.
O especialista também alertou sobre a concentração do mercado: sete grupos econômicos concentram entre 94% e 96% da capacidade instalada de moagem de soja do país, enquanto existem umas 25 empresas não integradas elaboradoras de biodiesel que hoje abastecem o mercado obrigatório.
O setor do bioetanol mostra maior consenso entre as indústrias de milho e cana de açúcar, mas a falta de acordo em biodiesel frena o crescimento de toda a cadeia de biocombustíveis.
Muitas das plantas que hoje abastecem o mercado interno foram construídas especificamente para esse fim. Se desaparecerem, seriam perdidos empregos, investimentos e atividade econômica em distintas regiões do país.
O projeto deve equilibrar o desenvolvimento regional, a competição e a preservação do tecido produtivo, segundo os especialistas consultados.
Alfredo S. Quiroga