Em meio à reação do mundo empresarial aos discursos de Javier Milei, o governador da província de Buenos Aires participou do Council of the Americas, evento que reuniu líderes de gigantes como JP Morgan, Amazon e Apple. O encontro revelou tensões, cobranças por diálogo e os primeiros movimentos rumo às eleições de 2027. Confira os bastidores do evento e os principais embates políticos e econômicos!

O Council of the Americas (Conselho das Américas) celebrou seu encontro anual em Buenos Aires no Hotel Alvear entre quinta-feira, 20 de agosto, e sexta-feira, 21 de agosto de 2026. O evento, liderado pela presidenta e CEO Susan Segal, é um dos mais importantes fóruns de diálogo entre lideranças políticas e empresariais do continente. Nos bastidores, o encontro se tornou o novo epicentro das conversas sobre o futuro político e econômico do país.

Este ano, porém, o fórum veio recheado de tensões. O governo de Javier Milei tenta se blindar contra críticas enquanto a oposição, liderada por Alexis Kicillof, busca se posicionar. Do outro lado, grandes empresários que participam do Council representam setores estratégicos como energia, tecnologia, agronegócio, infraestrutura e serviços financeiros. Todos buscavam respostas sobre a sustentabilidade do plano econômico, e o cenário não poderia ser mais incerto: alguns atores comemoram índices de crescimento, enquanto outros lidam com uma realidade de quedas e cortes.

Milei adota tom mais duro no Council e recebe frieza

O presidente Javier Milei participou do evento e, para defender seu pacote econômico, lançou uma enxurrada de críticas e desqualificações a opositores e empresários. Analistas locais interpretaram essa postura como uma repetição do estilo que Milei usou em 2023, época da campanha eleitoral. Porém, dentro do evento, a reação foi diferente: a plateia recebeu o discurso com frieza e aplausos fracos, tanto no Council quanto na Bolsa de Comércio de Rosário, um dos principais mercados do agronegócio global. Empresários sentiram falta de uma postura mais receptiva aos pedidos do setor privado.

Em um encontro privado com auspiciantes (patrocinadores) do evento, o influente assessor presidencial Santiago Caputo fez uma declaração que causou polêmica nos bastidores: “O Milei se reelegerá”, disse, referindo-se ao projeto de reeleição. Mais adiante, tentou ser ainda mais direto: “Não vejo cenário em que o peronismo possa nos derrotar em um segundo turno” e pediu para os empresários “continuarem investindo; há mais chances de este projeto perdurar se vocês o fizerem”. Essas falas provocaram um verdadeiro “passa-atrás” e alteraram por completo a agenda de conversas nos corredores.

A vez do governador Kicillof: “O caminho é um fracasso”

Kicillof também foi convidado e compareceu acompanhado por seu ministro de Governo, Carlos Bianco, e pelo ministro de Produção, Augusto Costa. Em um seminário restrito com representantes de multinacionais e de gigantes locais – JP Morgan, Aeropuertos Argentina, Pan American Energy, Amazon e Apple –, o governador falou por aproximadamente uma hora.

Sem rodeios, o governador reforçou o discurso de oposição: “Ordem macroeconômica, sim, mas é preciso olhar a que custo”. E emendou: “O caminho econômico é um fracasso”, dizendo que não existe um plano de desenvolvimento produtivo. Com o objetivo de atrair investimentos, convidou os executivos a visitarem-no em La Plata, a capital da província. Sua participação marca a continuidade de uma estratégia: buscar aproximação com os grandes grupos empresariais, muitos dos quais enxergam nele um eventual nome forte da oposição para a disputa presidencial de 2027.

RIGI, agronegócio e El Niño

Os empresários, apesar de terem elogiado a redução da inflação, mostram-se preocupados com a situação de setores da economia que sofrem com as primeiras decisões do governo. Enquanto agro, mineração e energia apresentam crescimento de dois dígitos, a indústria, o comércio e a construção civil – segmentos que somam mais de um terço do PIB e cerca de 45% do emprego formal – enfrentam graves dificuldades. Há demandas por “políticas de transição”, mas o Palácio do Governo as classifica como “contaminadas” ou “tendenciosas”.

Uma das maiores contradições apontadas: Milei diz defender o livre mercado, mas sancionou e promove o RIGI – Regime de Incentivo às Grandes Inversões, uma lei que concedem benefícios fiscais e cambiais para megaprojetos. Já o campo, principal setor exportador, continua pago pesadas retenções. O governador de Santa Fé, Maximiliano Pullaro, por exemplo, lembrou que seu estado é responsável por 46% de todos os direitos de exportação do setor agrícola. Já o presidente da Bolsa de Comércio de Rosário, Pablo Bortolato, disse que a produção de grãos poderia chegar a 250 milhões de toneladas em 10 anos, se o governo retirasse as barreiras. Para efeito de comparação, a safra 2025/2026 foi recorde: 163 milhões de toneladas.

No campo, o temor é a chegada do El Niño, que pode provocar excesso de chuvas e atrapalhar a logística. Por isso, os produtores estão retardando as vendas na esperança de obter melhores preços, inclusive com um câmbio mais favorável.

Inflação e dados do consumidor

O presidente afirma que o consumo está em níveis recordes, mas o INDEC – Instituto Nacional de Estadística e Censos indica uma realidade diferente: as vendas em supermercados estão caindo, enquanto o consumo nos bairros e no mercado informal cresce. No último ano, os rendimentos de trabalhadores informais subiram 35,5%, enquanto os trabalhadores com carteira assinada tiveram alta menor: 30%. Já a inflação acumulada em 12 meses está em 33%, o que na prática reduz o ganho do consumidor. Essa situação preocupa também o governo, pois a alta informalidade reduz a arrecadação de impostos que sustenta o superávit fiscal.

Laboratórios contra o IOMA

A crise de saúde na província ganha contornos críticos. As câmaras de laboratórios farmacêuticos Caeme, Cilfa e Cooperala exigiram, por meio de notificação, que o IOMA (o Instituto de Obra Médico-Assistencial, o plano de saúde dos servidores estaduais) pague uma dívida de $230.060 milhões de pesos acumulada entre outubro e abril. A assinatura do convênio MEPPES (que garante descontos de medicamentos a afiliados) está ameaçada. Caso o pagamento não seja efetivado em 10 dias corridos, o acordo será cortado e os laboratórios podem suspender a venda de remédios com desconto, a partir de 31 de agosto de 2026. O governo provincial, no entanto, afirma que a negociação ainda corre e que “não há motivos para preocupação”.

Agenda legislativa

Para quarta-feira, 26 de agosto de 2026, o governo planejou um “supermercado” legislativo na Câmara dos Deputados, com votação de pautas importantes: a reforma da Carta Orgânica do Banco Central (que pode alterar a relação do governo com a política monetária), a Lei da “Inocência Fiscal II” (que traz mudanças em benefícios fiscais), o acordo comercial do Mercosul com Singapura e a adesão ao Tratado de Cooperação em Patentes (PCT), que facilita o registro de patentes internacionais para laboratórios e empresas de tecnologia.

Comércio exterior

A relação com os Estados Unidos vem ganhando ainda mais forma. Uma delegação da USTR – o braço comercial do governo norte-americano – chegará ao país, chefiada pelo número dois do órgão, Jeff Goettman. Entre os temas: a adesão da Argentina ao PCT e a exigência dos EUA de que o país não adote tecnologia chinesa em setores como telecomunicações e segurança. No setor farmacêutico, há um estudo para alterar o decreto 150/92, com o objetivo de facilitar a importação de medicamentos.

O que os empresários querem

Em sua maioria, os líderes ouvidos pelo Council disseram que querem previsibilidade. A lista de pedidos é encabeçada por: “concórdia, moderação e boa forma” entre os Poderes, além de um diálogo mais respeitoso com o setor privado. Também alertam que, sem atenção ao descontentamento social – desemprego, fechamento de fábricas, falta de crédito –, o país pode “sentir falta do passado” e abrir espaço para um retrocesso político.

Fontes: La Verdad Online – reportagem original