23/06/2026 15:41 - Politica
A sessão convocada pela oposição para avançar com a interpelação do chefe de Gabinete, Manuel Adorni, fracassou nesta terça-feira, 23 de junho de 2026, por falta de quórum na Câmara dos Deputados da Argentina. Apenas 117 presentes foram registrados, quando eram necessários 129 para sessão.
O bloco La Libertad Avanza (o partido do presidente Javier Milei) obteve um acordo com o PRO (partido de Mauricio Macri), a UCR (União Cívica Radical) e blocos provinciais afins para não dar quórum. A estratégia foi impulsionada pelo presidente da Câmara, Martín Menem, que negociou com os aliados para evitar uma situação de exposição pública.
Na Argentina, a interpelação é um mecanismo constitucional que permite ao Congresso convocar ministros para prestar contas. Diferente de uma simples comparecência, a interpelação é obrigatória e pode terminar com uma moção de censura que obriga o funcionário a renunciar.
Os libertários permitiram que o tema seja tratado em comissão a partir da próxima semana. Foi convocada a comissão de Assuntos Constitucionais para o 30 de junho de 2026. No entanto, ainda não foi oficializada a convocação para a comissão de Petições, Poderes e Regimentos, a outra instância que deve atravessar o parecer.
Parte da oposição argumenta que o artigo 101 da Constituição "tem caráter operativo", pelo que um pedido de interpelação não deveria passar por comissão. Em contrapartida, os libertários sustentam que deve passar primeiro por comissão para obter parecer ou ser aprovado "sobre as mesas" com maioria de dois terços (algo impossível de alcançar para a oposição).
O deputado libertário Nicolás Mayoraz, presidente da comissão de Assuntos Constitucionais, assinalou: "Ao longo da história o Congresso sempre entendeu que o artigo 101 da Constituição não era operativo, por isso há uma dúzia de projetos apresentados para regulamentar seu funcionamento. Os antecedentes estão do nosso lado".
Manuel Adorni já se comprometeu a comparecer no 2 de julho de 2026 no Senado para apresentar seu informe de gestão. Nessa instância também deverá responder perguntas da oposição sobre seu patrimônio.
O escândalo conhecido como "AdorniGate" envolve um incremento patrimonial de 775%, passando de declarar 20 milhões de pesos a 944 milhões de pesos. A moção de censura contra Adorni soma 120 das 129 assinaturas necessárias. A causa está em mãos do juiz Ariel Lijo.
Na Argentina, o Chefe de Gabinete é o segundo funcionário mais importante do governo depois do presidente. É responsável por coordenar os ministérios e fazer a ligação entre o Poder Executivo e o Congresso. Um escândalo de corrupção nesse cargo tem grande impacto político.
O oficialismo buscou desviar o foco da discussão sobre Adorni para não travar a agenda parlamentar. O quarta-feira 24 de junho de 2026, La Libertad Avanza convocou uma sessão especial para tratar:
Ambas as iniciativas têm consenso com os aliados para serem aprovadas.
Os holdouts são credores que recusaram participar das reestruturações da dívida argentina (2005 e 2010). São frequentemente chamados de "fundos abutres" na Argentina. O governo busca regularizar essa situação para recuperar o acesso aos mercados internacionais de crédito.
Pablo Juliano (radical dissidente de Províncias Unidas) protestou: "Vocês (a UCR) estão condenando a Argentina a uma crise institucional. Vocês que creem que podem fazer pensar por um instante à sociedade que vale a pena sustentar Adorni. Não há problema, a sentença mais importante já a carrega sobre seus ombros, e a sentença a tem a gente, que é um corrupto, que mentiu à gente, que nos mentiu ao Congresso".
O socialista Esteban Paulón acrescentou: "Ganharam alguns dias, não para que Adorni acerte os números porque já tentou e não pôde. Talvez haja que esperar alguns dias, mas já vai chegar. Porque o próprio Milei sabe que Adorni é um 'prego' que não pode continuar arrastando".
Neste cenário, Javier Milei designou Adrián Ravier como novo porta-voz presidencial após uma reunião de 6 horas em Olivos (residência presidencial). Ravier é deputado nacional por La Pampa, economista liberal, discípulo de Jesús Huerta de Soto e diretor acadêmico da Fundação Faro. Deverá pedir licença como deputado para assumir o cargo.
A interpelação a Adorni estava programada originalmente para 25 de junho de 2026. O juiz Ariel Lijo tem a causa pelo incremento patrimonial questionado.
Alfredo S. Quiroga