20/06/2026 09:26 - Economia
Torre de telecomunicaciones en Buenos Aires con antenas móviles y cables de fibra óptica al atardecer, representando la fusión de empresas
O Tribunal de Defesa da Concorrência (TDC) autorizou em 18 de junho de 2026 a compra da Telefónica Móviles Argentina pela Telecom, uma operação avaliada em USD 1,25 bilhão anunciada em fevereiro de 2025. A decisão inclui condições estruturais e comportamentais para evitar que a fusão constitua um monopólio que prejudique os usuários e a livre concorrência.
Para entender a dimensão desta operação, é importante conhecer o Grupo Clarín. Trata-se do maior conglomerado de mídia e comunicação da Argentina, fundado em 1945. O grupo controla o jornal de maior circulação do país (Clarín), canais de televisão aberta e fechada, rádios, portais de internet e, através da Telecom, serviços de telefonia fixa, móvel e internet.
O Grupo Clarín é controlado pela família Noble e por Héctor Magnetto, sua principal figura executiva. Historicamente, o grupo teve relações complexas com diferentes governos argentinos, alternando entre apoios e conflitos.
Segundo o comunicado oficial, a Telecom deverá cumprir com as seguintes exigências:
Com estas condições, a concentração do mercado seria reduzida de 70% projetada para 50%, segundo as estimativas oficiais.
AMBA significa Área Metropolitana de Buenos Aires. É a região mais populosa da Argentina, incluindo a Cidade Autônoma de Buenos Aires e sua zona metropolitana, totalizando cerca de 15 milhões de habitantes (um terço da população argentina). Concentra a maior parte da atividade econômica e cultural do país.
A venda marca a retirada definitiva da Telefónica da Espanha do mercado argentino após mais de 36 anos de presença. A companhia espanhola chegou ao país em 1990 como parte das privatizações impulsadas pelo presidente Carlos Menem, quando se dividiu e privatizou a Empresa Nacional de Telecomunicações (ENTel).
A Telefónica se adjudicou a zona Sul da ENTel, enquanto a zona Norte ficou em mãos do consórcio que originou a Telecom Argentina. A transferência efetiva se concretizou em 8 de novembro de 1990.
1990: Chegada ao país mediante privatização da ENTel (zona Sul).
Décadas seguintes: Modernização da rede, digitalização de centrais, expansão de telefonia fixa e móvel (Movistar).
Clientes: Alcançou aproximadamente 20 milhões de clientes entre telefonia móvel, internet e outros serviços.
Empregados: Mais de 10.000 funcionários diretos.
2025: Anúncio de venda para Telecom por USD 1,25 bilhão como parte da estratégia de redução de exposição na América Latina.
Javier Milei é o atual presidente da Argentina, eleito em 2023. Economista de formação, tornou-se conhecido por suas posições libertárias, defesa do mercado livre e críticas ao intervencionismo estatal. Sua administração tem se caracterizado por políticas de liberalização econômica, redução do Estado e abertura aos investimentos privados.
A operação gerou uma forte controvérsia política. O presidente Javier Milei tinha fixado em suas redes sociais uma mensagem onde acusava o Grupo Clarín de buscar "ficar com 70% das telecomunicações" e assumir uma "posição dominante". No entanto, o governo finalmente autorizou a fusão com condições.
A Telecom considerou as exigências "excessivas" segundo fontes citadas, já que superavam amplamente sua proposta original de ceder 3 milhões de assinantes móveis e 130.000 de banda larga fixa.
Com a aprovação, a Telecom se posiciona como único grupo capaz de oferecer pacotes convergentes (fixo, móvel e TV paga) em escala nacional. Seu principal competidor, Claro (filial da América Móvil do bilionário mexicano Carlos Slim), não possui a capilaridade de rede fixa da Telecom.
A operação também foi questionada pela Telecentro (operadora de Alberto Pierri, empresário e ex-político argentino) no ENACOM. As empresas concorrentes assinalaram que a fusão concentraria 61% de telefonia móvel, 69% de telefonia fixa e até 80% de internet residencial em algumas zonas.
A Telecom terá 18 meses para completar o desinvestimento de clientes e espectro. A transferência de clientes móveis deve ser realizada para um "novo competidor" do setor, embora não se tenha especificado qual operador poderia adquirir esses ativos.
A decisão oficial representa o fechamento de um ciclo que começou com as privatizações dos anos noventa e que agora conclui com um novo debate: não sobre a privatização de empresas estatais, mas sobre os limites da concentração no mercado de telecomunicações.
Alfredo S. Quiroga