O mundo empresarial argentino vive dias de tensa expectativa. As recentes aparições públicas de Javier Milei no Council of the Americas (quinta-feira, 20 de agosto) e na Bolsa de Comércio de Rosário (sexta-feira, 21) deixaram um sabor agridoce entre os líderes do setor privado. Embora apoiem o rumo econômico, a falta de empatia do presidente e seu tom zombeteiro em relação aos críticos acenderam alarmes sobre um possível "efeito nostalgia" que ameace a continuidade do plano.
O mal-estar no Council e em Rosário
Segundo revelou o jornal Ámbito, dirigentes que participaram de ambos os encontros notaram que "os aplausos foram mornos" em lugares onde antes Milei era ovacionado. "Isso é preocupante", refletiam, perguntando-se como o governo será visto pelos setores mais castigados, como as pequenas e médias empresas ou o conurbano profundo (a região metropolitana de Buenos Aires).
No Council, realizado no Hotel Alvear, no centro de Buenos Aires, reuniram-se os empresários mais influentes do país. Em Rosário, o público foi composto majoritariamente por homens de negócios ligados ao agronegócio, um setor beneficiado pelas políticas oficiais, mas que ainda sofre com as retenções (impostos sobre exportações).
Reivindicações por políticas de transição
Enquanto o agro, a mineração e a energia crescem a dois dígitos, a indústria, o comércio e a construção civil – que representam mais de um terço do PIB e cerca de 45% do emprego formal – enfrentam sérias dificuldades. Um dirigente industrial explicou no lobby do Alvear que "ninguém pede para voltar às cotas de exportação, mas são necessárias políticas de transição".
No entanto, no Poder Executivo, essas reivindicações são descartadas "como se nossas recomendações estivessem contaminadas", disse um empresário que afirma concordar com muitas políticas de Milei. Eles também criticaram a contradição entre o livre mercado e o RIGI (Regime de Incentivo a Grandes Investimentos), que concede benefícios fiscais e cambiais a determinados setores.
O campo e as retenções
O setor agropecuário, que não possui um regime específico, continua pagando retenções. No evento da Bolsa de Comércio de Rosário, o governador Maximiliano Pullaro lembrou que Santa Fe contribui com 46% desses tributos. O presidente da entidade, Pablo Bortolato, destacou que a produção de grãos poderia alcançar 250 milhões de toneladas em uma década se os direitos de exportação fossem eliminados e a infraestrutura melhorasse. A safra 2025/2026 foi recorde, com 163 milhões de toneladas.
Os produtores dosam as vendas esperando um dólar mais alto e temem os efeitos do fenômeno El Niño (excesso de chuvas) na próxima colheita.
O consumo e a economia informal
Milei insiste que o consumo está em níveis "recorde", mas os dados mostram uma queda nos supermercados e um aumento nos comércios tradicionais. Um especialista explicou que muitas empresas preferem vender para os "super chineses" (mercados de bairro) porque pagam à vista, e que os pequenos negócios vendem cada vez mais na informalidade, a preços competitivos.
Além disso, a renda dos trabalhadores informais cresceu 59,5% no último ano (INDEC, dados de junho), contra apenas 30% dos trabalhadores formais, com uma inflação de 33%. Isso reflete um aumento da economia paralela, que coloca em risco a arrecadação e o superávit fiscal.
Kicillof, o Council reservado e a corrida para 2027
Em paralelo, Axel Kicillof protagonizou um encontro que passou despercebido. A presidente do Council of the Americas, Susan Segal, organizou uma agenda paralela para seus principais patrocinadores, com um café da manhã com Federico Sturzenegger e duas palestras: uma com Santiago Caputo e outra com o governador bonaerense.
Segundo o jornal La Nación, Kicillof chegou acompanhado de seus ministros Carlos Bianco e Augusto Costa, e expôs por cerca de uma hora diante de representantes de JP Morgan, Aeropuertos Argentina, Pan American Energy, Amazon e Apple. Seu diagnóstico foi negativo: disse que o "rumo econômico é um fracasso" e que não há plano de desenvolvimento produtivo. Os empresários pediram para continuar a conversa em La Plata.
Em seu entorno, garantem que a construção de sua candidatura presidencial avança. Se até março não surgir outra alternativa forte do Partido Justicialista (PJ), Kicillof pode ser o candidato único. Mas Sergio Massa continua à espreita, embora dirigentes próximos afirmem que "se ele perceber que não tem chances, não será candidato". A interna peronista e a possível suspensão das PASO (eleições primárias) são fundamentais.
A "super quarta-feira" e a agenda legislativa
O governo planeja para quarta-feira, 26 de agosto, uma "super quarta-feira" na Câmara dos Deputados, com aprovação da reforma da Carta Orgânica do Banco Central, a Inocência Fiscal II, o tratado com Singapura e a adesão ao PCT (Tratado de Cooperação em Matéria de Patentes). Também espera a visita de uma delegação da USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA), liderada por Jeff Goettman, para revisar compromissos comerciais com os Estados Unidos.
Enquanto isso, os empresários pedem "concórdia e moderação" para que as políticas perdurem. "O Estado não pode se retirar de tudo como se o mercado fosse perfeito", comentou um industrial. A preocupação central: que a falta de diálogo e o cansaço social abram a porta para uma "nostalgia do passado" que coloque em risco tudo o que foi conquistado.
Dados-chave
- Eventos: Council of the Americas (20/08) e Bolsa de Rosário (21/08)
- Reivindicações: políticas de transição, fim das retenções, diálogo
- Consumo: informalidade em alta, renda informal +59,5% vs +30% formal
- Kicillof: reunião privada com JP Morgan, Amazon, Apple, etc.
- Próximo: "super quarta-feira" legislativa em 26/08