Esta é uma semana de fortes emoções para o mercado internacional de grãos. Uma combinação de fatores geopolíticos, climáticos e de oferta e demanda fez os preços da soja, do trigo e do milho dispararem na bolsa de Chicago, abrindo novas perspectivas para o campo argentino, que agora tem uma janela de oportunidades para negociar sua safra.
Soja em níveis que não eram vistos há mais de dois anos
Na última terça-feira, 25 de agosto de 2026, a soja norte-americana voltou a subir com força. Na bolsa de Chicago, o contrato com vencimento em setembro saltou para US$ 460,86 por tonelada, um ganho de US$ 9,65 em relação à sessão anterior. Já o contrato mais líquido, com vencimento em novembro, fechou em US$ 465,18 por tonelada, o maior preço em 27 meses.
O que está impulsionando essa alta? Um dos motivos é o forte apetite da China pela oleaginosa americana. O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) confirmou a compra de 333.000 toneladas de soja dos EUA para a temporada 2026/27. Esse movimento é estratégico: Pequim quer garantir o abastecimento antes de um possível impacto do fenômeno climático El Niño, que pode reduzir a safra na América do Sul, especialmente no Brasil e na Argentina.
Além disso, o mercado também foi afetado pelo relatório do Pro Farmer Crop Tour, uma pesquisa que monitora as plantações dos EUA. Ela indicou que a condição das lavouras de soja americana está pior do que no ano passado: apenas 60% delas estão em estado bom/excelente, contra 69% no mesmo período do ano anterior.
O que está por trás da alta da soja?
- 🛍️ Compras da China: Com medo de El Niño, a China se antecipou e comprou 333.000 t dos EUA.
- 🌱 Lavouras americanas em estado regular: A safra dos EUA está boa, mas um pouco pior que no ano passado. Segundo o Crop Tour, apenas 60% está em bom estado.
- 📈 Fondos de investimento: Os fundos especulativos compraram 5 milhões de toneladas até 18/08, uma posição líquida comprada de 11,8 milhões de toneladas.
- 🇧🇷🇦🇷 El Niño e estoques de soja no Brasil: A perspectiva de queda na produção sul-americana, especialmente no Brasil, faz com que os EUA se tornem um fornecedor ainda mais crucial.
A janela para os produtores argentinos
Com esse cenário, os produtores argentinos têm um grande incentivo para vender. O preço da soja disponível no mercado local de Rosario fechou em US$ 354,50 por tonelada nessa quarta-feira, cerca de US$ 4 a mais que no dia anterior. Isso porque a Argentina ainda tem 24,5 milhões de toneladas de soja da safra 2025/26 sem vender, de acordo com dados do setor.
O volume negociado diariamente no recinto de Rosario é alto, entre 400.000 e 500.000 toneladas, chegando a picos de 1,1 milhão de toneladas no dia 13/08.
🌾 Trigo em alta forte: bloqueio do Mar Negro estremece o mercado
O mercado de trigo teve um choque gigante. O preço do cereal na bolsa de Chicago para setembro disparou para US$ 268,41 por tonelada, um salto de US$ 16,54 em um dia, o maior valor desde maio de 2024. Na sessão, o mercado foi colocado por uma notícia séria: o ataque com drones à terminal de grãos de Novorossiysk, principal porto exportador da Rússia no Mar Negro.
Essa terminal tem uma capacidade para gerenciar 7,1 milhões de toneladas de grãos por ano, o que representa cerca de 14% de todas as exportações russas. A paralisação forçada deve durar até 4 meses, segundo estimativas do mercado, e afeta drasticamente o fluxo de mercadorias.
A situação é grave: o 97% das capacidades de exportação de grãos da Rússia e Ucrânia estão paradas. Cerca de 70 navios estão aguardando para carregar no canal de Sulina, na Romênia, mas o ritmo está muito lento. No mês de agosto, a Ucrânia conseguiu exportar apenas 540.000 toneladas, uma queda de -68,8% na comparação anual. E os números gerais são drásticos: a Rússia pode exportar apenas entre 1,8 e 2,6 milhões de toneladas de trigo em agosto, contra os 4 milhões de toneladas que normalmente exporta. É o menor volume para o país desde 2010.
Para a Ucrânia, a situação é ainda pior: com o bloqueio, as exportações da próxima campanha (2026/27) devem cair para entre 5 e 10 milhões de toneladas (o ciclo anterior foi de 14 milhões). Esse corte grande na oferta global joga o preço para cima, porque o mercado busca substitutos.
Oportunidade para o trigo argentino
A Argentina pode aproveitar essa janela. Ainda há 6,5 milhões de toneladas de trigo da campanha 2025/26 sem vender, um volume muito maior do que no ano anterior (cerca de 2,5 milhões). As vendas estão acelerando: nas últimas 4 semanas, foram negociadas mais de 350.000 toneladas por semana, contra uma média de 200.000 anterior.
No mercado interno, os preços da nova campanha (2026/27) estão entre US$ 220 e US$ 230 por tonelada, enquanto a colheita local tem uma condição boa: 99% da área plantada está em boas condições e 83% da lavoura em estado bom/excelente.
🌽 Milho: cinco altas seguidas
O milho não fica de fora. Na bolsa de Chicago, o preço do milho para setembro subiu US$ 3,55, para US$ 197 por tonelada, marcando a quinta sessão de alta seguida. Esse é o maior preço em 20 meses.
Os dados de produção dos EUA, que também indicam uma colheita menor que a esperada, são o principal motor dessa alta. O Crop Tour apontou uma produção de milho de 389,74 milhões de toneladas nos EUA, uma diferença enorme de 17 milhões de toneladas (-4,18%) em relação às estimativas do USDA, que falam em 406,73 milhões. O rendimento projetado ficou em 108,7 sacas por hectare, contra 113,4 do relatório oficial.
Além disso, o USDA reduziu a condição do milho de 60% para 57% em estado bom/excelente (no ano passado era de 71%), o pior nível desde 2023 para esse momento da safra. E, na União Europeia, também há quebra na produção, o que fez o Conselho Internacional de Cereais cortar em 1 milhão de toneladas a projeção da produção mundial, para 1.305 milhões de toneladas.
| Grão | Contrato | Preço em Chicago (25/08/2026) | Variação |
|---|---|---|---|
| Soja | Setembro | US$ 460,86/t | + US$ 9,65 |
| Soja | Novembro | US$ 465,18/t | Máxima em 31 meses |
| Trigo | Setembro | US$ 268,41/t | + US$ 16,54 |
| Milho | Setembro | US$ 197/t | + US$ 3,55 |
Milho na Argentina
Na Argentina, a colheita do milho tardio está em 81,3% de conclusão, um avanço de 8 pontos em uma semana, mas ainda atrasado 15 pontos da média histórica. 48% do milho já vendido está com preço, contra 41% do ano anterior. A comercialização voltou a um ritmo forte: mais de 1 milhão de toneladas por semana são negociadas. Com o atraso da safra, as vendas estão concentradas em contratos futuros, com preços em US$ 200 por tonelada.
📈 Contexto macro: a hora é essa
Essas altas não são casos isolados. Elas acontecem em um ambiente em que o dólar está fraco, o que barateia os grãos para os compradores internacionais, e o mercado ainda está com os preços das matérias-primas em alta por causa da instabilidade geopolítica, como o problema no Mar Negro. Além disso, o mercado aguarda com atenção a reunião entre Xi Jinping e Donald Trump prevista para 24 de setembro, que pode dar sinais sobre acordos comerciais.
Segundo Dante Romano, especialista da Universidade Austral, o mercado está em alerta. Ele lembra que a menor produção observada pelo Crop Tour não significa automaticamente menos estoques, porque a demanda pode se ajustar. O ponto decisivo será o relatório do USDA do dia 11 de setembro. Se a logística do Mar Negro se normalizar, os preços do trigo podem corregir com força, alerta.
Na Argentina, as exportações agropecuárias e agroindustriais somaram US$ 31.952 milhões entre janeiro e julho, uma alta de 14,9% sobre o ano passado. O complexo soja e derivados lidera, com US$ 10.549 milhões, e o milho vem em seguida com US$ 5.269 milhões. Para os produtores argentinos, que ainda têm quase 25 milhões de toneladas de soja para vender, é hora de buscar os compradores antes que os preços esfriem. No final do dia, o agro argentino já olha com otimismo para o dia 11 de setembro, aguardando o novo relatório do USDA e, com ele, uma definição mais clara das tendências para o final do ano.