O mercado internacional de grãos vive um momento de euforia. Nas últimas sessões, os preços da soja, do milho e do trigo em Chicago atingiram níveis máximos que não eram registrados há mais de um ano e, em alguns casos, há mais de 20 meses. Essa situação, impulsionada por uma combinação de fatores geopolíticos, climáticos e de demanda, abre uma janela de oportunidade inédita para a Argentina, um dos principais produtores e exportadores mundiais dessas commodities.
Segundo dados do mercado de Chicago, a soja para setembro é cotada a US$ 460,86 por tonelada, com um aumento de US$ 9,65 em uma única sessão, enquanto a posição novembro atinge US$ 465,18 por tonelada. Esses valores representam o nível mais alto desde o início do governo de Javier Milei e se aproximam das máximas históricas de dezembro de 2023, quando a soja chegou a tocar US$ 490,15.
O trigo não fica atrás: a posição setembro subiu US$ 16,54, para US$ 268,41 por tonelada, equivalente a US$ 7,13 por bushel, o valor mais alto desde maio de 2024. No acumulado de agosto, o trigo registra alta de aproximadamente 12%. O milho também comemora: a posição setembro alcançou US$ 197 por tonelada, com uma quinta sessão consecutiva de alta e um preço que não era visto em 20 meses, com uma alta acumulada semelhante à do trigo.
Por que os preços estão subindo?
Por trás desse rali altista, há uma confluência de fatores que tensionam a oferta global de grãos. O primeiro é o conflito geopolítico. A guerra entre Rússia e Ucrânia continua paralisando as exportações da região do Mar Negro, uma área-chave para o comércio mundial de trigo e milho. Estima-se que 97% da capacidade exportadora de grãos da região esteja paralisada, com cerca de 70 navios esperando no canal de Sulina, no Danúbio, para poder zarpar.
O ataque com drones à terminal de Novorossiysk, na Rússia, um dos portos mais importantes para a exportação de grãos, complicou ainda mais o cenário. As reparações podem levar até quatro meses, e a terminal tem capacidade de 7,1 milhões de toneladas por ano, o que representa aproximadamente 14% das exportações russas. Como consequência, as exportações ucranianas entre 1º e 21 de agosto caíram 68,8% em relação ao ano anterior, e as exportações russas de trigo para agosto são estimadas em apenas 1,8 a 2,6 milhões de toneladas, contra uma média habitual de 4 milhões, o nível mais baixo desde 2010.
O segundo fator é o clima nos Estados Unidos. O Pro Farmer Crop Tour, uma visita anual aos principais estados produtores, projetou uma produção de milho de 389,74 milhões de toneladas, 4,18% abaixo dos 406,73 milhões projetados pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). O rendimento estimado é de 108,7 quintais por hectare, contra 113,4 oficiais. Além disso, o USDA informou que apenas 57% do milho e 60% da soja estão em condições boas ou excelentes, muito abaixo dos 71% e 69% do ano anterior, respectivamente.
O terceiro fator é a demanda da China. O gigante asiático comprou 333.000 toneladas de soja americana para a safra 2026/27, e espera-se que continue comprando antes da reunião entre Xi Jinping e Donald Trump, prevista para 24 de setembro. Além disso, o temor de um fenômeno El Niño que afete a safra sul-americana impulsiona as compras antecipadas.
Por fim, a União Europeia também desempenha um papel: as más perspectivas para sua produção de milho, devido a condições ambientais adversas, a obrigarão a aumentar suas importações.
O impacto na Argentina
Para a Argentina, essa conjuntura é uma oportunidade imperdível. No mercado local, a soja disponível em Rosário é cotada a US$ 354,50 por tonelada, com um aumento de US$ 4 na última sessão. Embora o produtor local ainda tenha margem, o preço está próximo do nível de US$ 350 que pode impulsionar o plantio da safra 2026/27 em campos de rendimentos médios.
Quanto ao trigo, a safra 2025/26 deixou 6,5 milhões de toneladas nas mãos dos produtores, contra apenas 2,5 milhões no ano anterior. O plantio da safra 2026/27 já está 99% da área projetada, com 84,8% dos lotes com condição hídrica ótima ou adequada e 83% das lavouras em estado bom ou excelente. As compras antecipadas para a nova safra chegam a 2,78 milhões de toneladas, 13% da produção estimada. Um dado curioso: a França voltou a embarcar trigo para o Sudão, algo que não acontecia há 18 anos, demonstrando a reconfiguração do comércio mundial.
O milho também mostra um panorama animador. As vendas antecipadas para a safra 2026/27 somam 2,14 milhões de toneladas em 12 de agosto, das quais 1,47 milhão têm preço firme. A reativação dos negócios vem ocorrendo desde 15 de julho, com pico na semana de 5 de agosto.
O volume de operações no mercado local reflete o otimismo: no início de agosto, negociavam-se entre 400.000 e 500.000 toneladas diárias, mas em 13 de agosto foi atingido um recorde de 1,1 milhão de toneladas, e posteriormente manteve-se em torno de 800.000 toneladas diárias.
Exportações em alta
As exportações argentinas do setor agroindustrial já mostram números positivos. Entre janeiro e julho, as vendas externas totalizaram US$ 31.952 milhões, 14,9% a mais que no mesmo período do ano anterior. O milho contribuiu com US$ 5.269 milhões (+12%), e a soja e seus derivados, US$ 10.549 milhões, aproximadamente um terço das divisas do setor.
Estratégia para o produtor
Nicolás Sesnich, líder de Consultoria da fyo, recomenda aos produtores aproveitar as cotações atuais para fechar margens, mas mantendo flexibilidade diante de uma eventual continuidade das altas. A sugestão é vender acima do preço-alvo e se proteger, usando opções como a compra de calls para capturar altas adicionais. O custo de capturar essas oportunidades é de US$ 3 a 5 por tonelada, um valor baixo em comparação com o benefício potencial.
Riscos a considerar
Apesar do otimismo, existem riscos. Uma normalização da logística no Mar Negro pode provocar uma correção brusca nos preços do trigo. Além disso, uma queda no preço do petróleo pode limitar a melhora da soja. No entanto, a fraqueza do dólar americano favorece as commodities, pois as torna mais baratas para os compradores internacionais.
Em resumo, a Argentina está diante de uma janela de oportunidade única para capitalizar os altos preços internacionais. A combinação de fatores geopolíticos, climáticos e de demanda global joga a favor do campo argentino, que já mostra sinais de reativação nas operações e nas vendas antecipadas. O desafio agora é aproveitar esse momento com inteligência e estratégia.