01/07/2026 15:34 - Politica
A posse de Diego Santilli marca uma guinada estratégica em direção ao pragmatismo político após semanas de turbulência institucional na Argentina.
Em 30 de junho de 2026 às 17:30, no histórico Salão Branco da Casa Rosada (o palácio presidencial argentino, equivalente ao Palácio do Planalto no Brasil), Diego Santilli prestou juramento como novo Chefe de Gabinete de Ministros. O cargo é o segundo mais importante do Poder Executivo argentino, funcionando como uma espécie de "primeiro-ministro" que coordena todos os ministérios.
A cerimônia contou com a presença de 14 governadores aliados, em uma demonstração de força política que buscou projetar unidade após o escândalo que obrigou Manuel Adorni a renunciar.
Santilli, de 59 anos, chega a esta posição com uma trajetória consolidada na gestão pública. Foi vicechefe de Governo da Cidade Autônoma de Buenos Aires entre 2015 e 2021, durante a gestão de Horacio Rodríguez Larreta, e atuava como ministro do Interior desde novembro de 2025. Para quem não conhece, a CABA (Cidade Autônoma de Buenos Aires) é a capital federal argentina, equivalente ao Distrito Federal brasileiro.
A designação de Santilli responde à necessidade de reconstituir a imagem do governo após a renúncia de Manuel Adorni em 27 de junho de 2026. O ex-porta-voz presidencial enfrentava investigações por um incremento patrimonial de 775%, passando de $20 milhões a $944 milhões de pesos argentinos. Além disso, investigava-se pagamentos não declarados de USD 245.000 em reformas no country Indio Cuá (um condomínio fechado de alto padrão, muito comuns na Argentina) e USD 500.000 em criptomoedas não declaradas.
Segundo análises de Alejandro Catterberg, especialista em opinião pública, o escândalo gerou uma perda de 10 pontos de imagem entre eleitores de Milei e 20 pontos entre eleitores do PRO (Proposta Republicana, o partido de centro-direita que governa Buenos Aires). Isso explica a urgência em reconstituir a aliança governativa.
A cerimônia reuniu um amplo espectro de dirigentes provinciais, evidenciando o esforço do governo em consolidar uma base territorial rumo às eleições de 2027. Na Argentina, as províncias têm autonomia política similar aos estados brasileiros:
| Governador | Província |
|---|---|
| Raúl Jalil | Catamarca |
| Leandro Zdero | Chaco |
| Juan Pablo Valdez | Corrientes |
| Carlos Sadir | Jujuy |
| Alfredo Cornejo | Mendoza |
| Rolo Figueroa | Neuquén |
| Alberto Weretilneck | Río Negro |
| Marcelo Orrego | San Juan |
| Claudio Vidal | Santa Cruz |
| Osvaldo Jaldo | Tucumán |
| Rogelio Frigerio | Entre Ríos |
| Gustavo Sáenz | Salta |
| Jorge Macri | CABA (Buenos Aires) |
| Martín Llaryora | Córdoba |
Ignacio Devitt assumiu como vicechefe executivo, enquanto Gustavo Coria ficou a cargo do Interior como vicechefe dessa pasta. Adrián Ravier foi designado novo porta-voz presidencial, substituindo parcialmente as funções que Adorni antes concentrava.
O governo busca focar a agenda em seus êxitos econômicos: o Banco Central argentino acumulou USD 11.000 milhões em compras durante 2026, as reservas alcançam USD 47.081 milhões e o superávit comercial acumulado entre janeiro e maio de 2026 totaliza USD 11.783 milhões.
A chegada de Santilli ao Gabinete representa um movimento estratégico para fortalecer a coalizão governativa rumo às eleições presidenciais de 2027. Seu perfil de gestor e sua vinculação com o PRO buscam consolidar o voto moderado que poderia ter se desgastado durante os últimos meses.
O novo Chefe de Gabinete enfrentará desafios imediatos: a negociação parlamentar com setores que acumulavam críticas à gestão anterior, a reconstituição da relação com as províncias e a coordenação de uma agenda legislativa que inclua reformas políticas, a anulação das PASO (Primárias Abertas Simultâneas e Obrigatórias, um sistema único de eleições primárias na Argentina) e a possível implementação da Lei de Lemas (sistema eleitoral que permite que partidos apresentem múltiplas candidaturas).
Alfredo S. Quiroga