30/06/2026 15:50 - Politica
O presidente Javier Milei redobrou suas críticas ao ex-presidente Mauricio Macri e classificou o reperfilamento da dívida em pesos durante a gestão de Cambiemos como "uma fraude". As declarações ocorrem em um contexto de renovada tensão com o PRO, partido político argentino de centro-direita fundado por Macri em 2005.
Para compreender o cenário: Javier Milei é o atual presidente da Argentina, eleito em 2023, conhecido por sua postura libertária e economista de formação. Já Mauricio Macri foi presidente da Argentina entre 2015 e 2019, liderando a coalizão política Cambiemos ("Mudemos" em português), que reunia partidos de centro-direita.
"Depois os Kirchner também fraudaram os argentinos, roubando as poupanças. Ou roubando com diferentes medidas que confiscaram ativos. Ou o próprio governo de Mauricio Macri, que fraudou os argentinos dando calote na dívida em pesos. Ou o que foi o reperfilamento?", questionou o presidente durante entrevista ao programa Neura no dia 29/06/2026.
Nota: Os "Kirchner" referem-se a Néstor Kirchner (presidente 2003-2007) e Cristina Fernández de Kirchner (presidente 2007-2015), figuras centrais do peronismo argentino e do kirchnerismo, movimento político de centro-esquerda.
As críticas de Milei surgem após Macri exigir publicamente a renúncia de Manuel Adorni, ex-porta-voz do governo, devido a um escândalo patrimonial envolvendo aumento de 775% em seu patrimônio. Adorni renunciou em 27/06/2026 após revelar-se que pagou 245.000 dólares não declarados por reformas em sua propriedade e possuía 500.000 dólares em criptomoedas não declaradas.
O PRO reivindicou a nomeação de Diego Santilli como novo chefe de Gabinete de Ministros, cargo equivalente a um "primeiro-ministro" no sistema argentino. Santilli tomará posse em 30/06/2026 às 17:30 no Salão Branco da Casa Rosada.
O reperfilamento da dívida foi uma medida implementada durante o governo de Mauricio Macri em 2018, consistindo na modificação dos prazos e condições dos títulos públicos em pesos. O governo da época estendeu os vencimentos dos bônus nessa moeda para reduzir a pressão sobre as reservas do Banco Central da Argentina.
Em termos simples: quando um governo "reperfila" sua dívida, está pedindo mais tempo para pagar o que deve, alterando as condições originais acordadas com os investidores.
Milei sustentou que esta medida constituiu um calote disfarçado ("default" em inglês), já que os investidores não puderam receber seus bônus nas condições originalmente pactadas. "Se você empresta dinheiro para alguém e não devolvem, como se chama?", planteou o presidente durante a entrevista.
Contexto econômico: Milei afirmou que estas decisões históricas explicam por que a Argentina não tem classificação "investment grade" (grau de investimento) a nível internacional, termo que indica que um país é considerado seguro para investidores internacionais. A Argentina perdeu esta classificação durante a crise econômica de 2018.
Apesar da dureza de suas críticas, Milei assegurou que mantém aberta a possibilidade de incorporar a quem acompanhe seu projeto político. "Todos os que quiserem seguir sustentando e apoiando esta mudança são sempre bem-vindos. Mas isso não implica negar a história", declarou.
Consultado sobre se seguia vigente a ideia de "tabula rasa" (começar do zero), respondeu: "Obviamente, para as pessoas de bem e que querem um país melhor sempre há tabula rasa. Mas não se pode negar a história".
O presidente rejeitou que suas declarações respondessem a uma mudança de postura política e assegurou que simplesmente descrevia fatos: "Estou mentindo? Estou descrevendo um motivo pelo qual as qualificações da Argentina não são investment grade à luz dos números que temos".
| Fato | Data | Detalhe |
|---|---|---|
| Renúncia de Manuel Adorni | 27/06/2026 | Escândalo patrimonial: aumento de 775% |
| Reclamo de Macri | 28-29/06/2026 | Solicitou renúncia de Adorni publicamente |
| Posse de Santilli | 30/06/2026 às 17:30 | Novo chefe de Gabinete de Ministros |
| Declarações de Milei | 29/06/2026 | Classificou reperfilamento como "fraude" |
PRO (Proposta Republicana) é um partido político argentino de centro-direita fundado por Mauricio Macri em 2005. O partido foi governante entre 2015-2019 e continua sendo uma força política significativa na Argentina. Diego Santilli é uma figura importante dentro do PRO, tendo sido vice-prefeito de Buenos Aires e atualmente designado para o cargo de chefe de Gabinete no governo de Milei, demonstrando uma possível aliança entre o libertarismo de Milei e o centro-direita do PRO.
Alfredo S. Quiroga