29/06/2026 12:43 - Politica
O cenário político de Misiones – uma província argentina localizada no extremo nordeste do país, fazendo fronteira com Brasil e Paraguai – atravessou um momento decisório quando o governador Hugo Passalacqua decidiu separar-se publicamente de Encuentro Misionero, o novo partido criado pelo deputado Carlos Rovira.
A ruptura, que vinha se gestando silenciosamente, tornou-se visível quando o novo espaço político publicou em suas redes oficiais uma lista de autoridades que incluía o governador sem seu consentimento. Este tipo de manobra é conhecido na política argentina como "armado de listas" – uma prática onde figuras políticas são incluídas em chapas ou estruturas partidárias sem sua autorização expressa.
O ministro Coordenador, Carlos Sartori, foi contundente: "Tanto o governador como a imensa maioria dos funcionários, dirigentes e militantes da província que o acompanhamos, fazíamos parte de um partido, a Renovação, que se extinguiu, já não existe mais". Além disso, denunciou que o novo espaço levou fichas de afiliação usando nomes sem autorização.
67 intendentes (prefeitos, como são chamados na Argentina) assinaram uma ata apoiando explicitamente a reeleição de Passalacqua, no que foi denominado uma "intifada dos intendentes" em Ruiz de Montoya, uma cidadezinha no interior de Misiones.
Os chefes comunais preferiram ficar com o governador ao invés de somar-se ao novo arranjo político.
A fratura tem raízes profundas. Segundo dirigentes consultados, a insatisfação com a condução de Carlos Rovira vinha desde há muito tempo. As queixas incluíam falta de diálogo, condução unipessoal e até uma confusão entre o público e o pessoal.
Um ponto de inflexão foi a resposta às protestas de policiais e docentes, que terminou com o encarceramento de manifestantes e, paradoxalmente, com o surgimento de Ramón Amarilla como nova figura política provincial.
"Depois das eleições do ano passado muitos víamos que íamos nos chocar contra uma parede. A única coisa que faltava era que alguém se impusesse e quando Hugo se impôs não lhe custou nada conseguir apoios"
— Dirigente veterano da política misioneraEnquanto se desenvolvia a disputa interna, Passalacqua anunciou decisões concretas de gestão. Estas medidas são particularmente importantes para compreender a dinâmica política argentina, onde os governadores frequentemente utilizam programas sociais como ferramenta de construção política:
Extensão por três meses mais dos programas com impacto no bolso dos misioneros. Estes são programas de créditos subsidiados para consumo.
28,6 milhões de pesos faturados por comerciantes no primeiro trimestre (+35% interanual).
A secretaria de Fazenda provincial estabeleceu um teto de 39% para descontos por folha de salários de funcionários públicos e aposentados, com linhas de refinanciamento para reduzir cotas.
Para compreender a dimensão desta ruptura, é importante conhecer o contexto histórico. O Frente Renovador governou Misiones por mais de duas décadas – uma hegemonia política rara na América Latina. Este tipo de longevidade no poder é chamado de "governabilidade" na política argentina, mas também gera desgaste e tensões internas.
O governador enfrenta um desafío que vai além de ganhar uma disputa interna: deve recuperar a confiança dos misioneros desencantados após mais de vinte anos de governo do mesmo espaço político. O desgaste é evidente e o novo cenário político também inclui uma oposição com cartas competitivas.
O que está em jogo não são apenas as alianças políticas, mas a capacidade de mostrar resultados de gestão em tempos de dificuldades econômicas. Passalacqua parece ter entendido que a melhor carta é essa: um governo ativo que responda aos reclamos sociais.
A política argentina se caracteriza por sua volatilidade e capacidade de reconfiguração rápida. O que acontece em Misiones é um exemplo de como os espaços políticos tradicionais podem fracturarse quando a gestão não acompanha as expectativas da população.
O Frente Renovador que governou Misiones por mais de 20 anos se fracturou definitivamente. Passalacqua constrói seu próprio caminho político com apoio de intendentes e partidos aliados, enquanto Rovira lidera Encuentro Misionero. A pergunta-chave: quem conduzirá o processo político rumo a 2027?
Fontes: Misiones Online | Noticias del 6
Alfredo S. Quiroga