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Morre Taty Almeida, lendária lider das Mães da Praça de Maio, aos 95 anos

15/06/2026 06:04 - Actualidad

Pañuelo blanco bordado sobre mesa de madera con flores blancas y vela encendida, homenaje respetuoso a la memoria

Uma vida dedicada à busca por verdade e justiça

Lidia Stella Mercedes Miy Uranga de Almeida, conhecida simplesmente como Taty, morreu neste domingo, 14 de junho de 2026, enquanto permanecia internada em estado crítico no Hospital Italiano de Buenos Aires.

Quem foi Taty Almeida?

Taty Almeida nasceu em Buenos Aires em 1930. Formou-se como professora e junto com seu marido Jorge Almeida teve três filhos. Sua vida mudou radicalmente em 17 de junho de 1975, quando seu filho Alejandro Almeida, de 20 anos, foi sequestrado pela Triple A (Aliança Anticomunista Argentina).

Alejandro estudava medicina na Universidade de Buenos Aires, trabalhava na agência estatal de notícias Télam e militava no Exército Revolucionário do Povo (ERP). Desde aquele dia, continua desaparecido.

Contexto histórico para brasileiros: A Triple A foi uma organização paramilitar que iniciou a repressão clandestina na Argentina dois anos antes do golpe militar de 24 de março de 1976. O terrorismo de Estado se prolongou até 1983. No Brasil, vivemos uma ditadura similar entre 1964 e 1985. A diferença principal é que na Argentina os desaparecidos eram levados a centros de detenção clandestinos e seus corpos nunca foram entregues às famílias. Por isso surgiu o movimento das Mães.

As Mães da Praça de Maio: explicação

A busca por seu filho a reuniu com outras mulheres que atravessavam a mesma angústia. Assim nasceram as Mães da Praça de Maio, identificadas com lenços brancos sobre suas cabeças, que desde 1977 desafiaram o regime militar caminhando em silêncio ao redor da Praça de Maio, em frente à Casa de Governo.

O que significam os lenços brancos? As Mães começaram a usar lenços brancos de tecido de fralda na cabeça durante as marchas. O branco simbolizava a paz e a pureza de suas intenções. Com o tempo, os lenços bordados com os nomes dos desaparecidos tornaram-se o símbolo mais poderoso da luta por direitos humanos na América Latina.

Taty se incorporou formalmente ao movimento em 1979 e com os anos se tornou sua presidente, na vertente conhecida como Linha Fundadora. Este grupo permanece ativo 50 anos depois, exigindo "memória, verdade e justiça".

Por que "Linha Fundadora"? Em 1986, as Mães se dividiram em dois grupos. A Linha Fundadora manteve o foco na recuperação dos corpos e na justiça. A outra vertente, liderada por Hebe de Bonafini, priorizava ações políticas mais amplas.

Suas últimas palavras públicas

Em abril de 2026, Taty foi distinguida como doutora honoris causa pela UBA (Universidade de Buenos Aires). Naquele ato, alertou sobre a passagem do tempo: "Restam três mães, nada mais, e duas avós".

Na marcha de 24 de março de 2026, quando se comemoraram 50 anos do início da ditadura, esteve presente no palco diante de uma multidão. "Demonstramos a Milei e sua equipe que não vão poder apagar a memória. São um Governo totalmente negacionista", declarou.

Referência política atual: Javier Milei é o presidente da Argentina desde dezembro de 2023. Seu governo foi criticado por organismos de direitos humanos por posições consideradas "negacionistas" em relação aos crimes da ditadura.

"Militar é ter compromisso, esse compromisso que os 30.000 desaparecidos assumiram. A luta não termina, a luta continua. A única luta que se perde é a que se abandona."

Taty Almeida, abril de 2026

Reações e homenagens

Mães da Praça de Maio (Linha Fundadora) comunicou seu falecimento: "As palavras não alcançam, nos ficam curtas, nos faz um nó na garganta. Tão imensa que não há forma de contá-lo. Obrigada por nos ensinar que amar é resistir, que a única luta que se perde é a que se abandona e que não existe força maior que a do amor."

Avós da Praça de Maio (organização similar que busca netos sequestrados durante a ditadura): "Foi-se uma mulher formidável, insubstituível, uma amiga, uma irmã, cuja ausência teremos que superar, como ela teria desejado, que a luta continuasse."

Agrupação Filhos: "A que mais nos entendeu e também nos repreendeu, a que colocava um sorriso forte em tudo. Ainda falta saber o que fizeram e onde está Alejandro. Seu nome em teu lenço, teu nome em nossa luta."

Cristina Fernández de Kirchner (ex-presidente argentina, 2007-2015): "Lutadora incansável que honrou a vida. Até sempre querida Taty."

Fernando Lugo (expresidente paraguaio): "O compromisso, coragem e coerência de Taty deixam uma marca imborrável na memória coletiva da América Latina e em todas as lutas pela vida e pela justiça."

Um legado imborrável

Taty Almeida morreu sem saber o que foi de seu filho Alejandro, sem poder se despedir de seus restos. Mas seu nome ficou inscrito para sempre na história dos direitos humanos na Argentina e no coração de milhões que aprenderam com ela que o amor pode ser a forma mais poderosa de resistência.

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