A missão conjunta da ESA e JAXA completou em 3 de setembro de 2026 a separação do Módulo de Transferência de Mercúrio (MTM) a mais de 200 milhões de quilômetros da Terra. Com essa manobra autônoma, a BepiColombo está pronta para sua inserção orbital em 21 de novembro, quando começará a desvendar os mistérios do planeta mais próximo do Sol.

Um marco a 200 milhões de quilômetros

A missão BepiColombo, fruto da colaboração entre a Agência Espacial Europeia (ESA) e a Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA), alcançou um novo marco em sua longa jornada rumo a Mercúrio. Em 3 de setembro de 2026, a nave completou a separação de seu Módulo de Transferência de Mercúrio (MTM), um componente-chave que a acompanhou por quase oito anos de travessia.

A manobra foi executada de forma autônoma a mais de 200 milhões de quilômetros da Terra. Devido à distância, os sinais de rádio levaram cerca de 11,5 minutos para chegar ao nosso planeta, e a confirmação foi recebida aproximadamente duas horas depois através das antenas da Deep Space Network na Espanha e na Argentina.

O que é o MTM? É o módulo que forneceu propulsão e energia à nave durante o trânsito. Após a separação, ele ficou sem capacidade de manobra: passará perto de Mercúrio e se afastará para sempre, enquanto os dois orbitadores científicos continuam sua missão.

Uma viagem de quase 10 bilhões de quilômetros

A BepiColombo foi lançada em outubro de 2018 de Kourou (Guiana Francesa) a bordo de um foguete Ariane 5. Desde então, percorreu cerca de 10 bilhões de quilômetros, com nove sobrevoos planetários (uma vez a Terra, duas Vênus e seis Mercúrio) para frear e se alinhar com a órbita do pequeno planeta.

A viagem não foi isenta de contratempos: a degradação dos painéis solares forçou o adiamento da entrada em órbita, originalmente prevista para dezembro de 2025, para novembro de 2026. Esse atraso implicou um custo adicional de 15 milhões de euros para a ESA.

Dois orbitadores, um mesmo objetivo

A missão leva duas naves científicas a bordo:

  • MPO (Mercury Planetary Orbiter, ESA): estudará a superfície, composição, topografia e interior do planeta.
  • Mio/MMO (Mercury Magnetospheric Orbiter, JAXA): analisará o ambiente espacial, a magnetosfera e a exosfera.

Durante a viagem, Mio foi protegida pelo MOSIF, um escudo solar que será liberado em dezembro. O MTM, já separado, cumpriu sua função e agora é história.

Próximos passos: a inserção orbital

O cronograma previsto é o seguinte:

DataEvento
21 de novembro de 2026Inserção orbital (captura gravitacional)
9-10 de dezembro de 2026Separação de Mio e MPO
16 de dezembro de 2026Liberação do escudo solar (MOSIF)
10 de março de 2027MPO atinge sua órbita definitiva
Abril de 2027Início da fase científica

As órbitas finais serão: MPO a 480×1.500 km e Mio a 590×11.640 km, ambas com inclinação de 90°. A missão durará um ano, com possível extensão para mais um ano.

Mercúrio: o planeta dos extremos

Mercúrio é o menor planeta e o mais próximo do Sol. Sua temperatura superficial ultrapassa os 427 °C durante o dia, e em seus polos há crateras em sombra permanente que abrigam gelo. Apenas duas missões anteriores o visitaram: Mariner 10 (NASA, 1974) e MESSENGER (NASA, 2011-2015).

Entre os mistérios que a BepiColombo tentará resolver estão:

  • Seu núcleo de ferro, que representa aproximadamente 65% de sua massa (em comparação com 32% da Terra).
  • As estranhas depressões superficiais chamadas "hollows", sem equivalente em outros planetas.
  • A presença de grafite, água e compostos orgânicos detectados pela MESSENGER.
  • Seu campo magnético, ainda pouco compreendido.

Uma teoria que conecta Mercúrio à Lua

Uma das hipóteses mais fascinantes sugere que Mercúrio pode ter perdido sua crosta externa após uma colisão com um planetesimal há cerca de 4,5 bilhões de anos. O material ejetado pode ter contribuído para a formação da Lua, da Terra ou de Vênus.

Um estudo recente do Southwest Research Institute e da Universidade do Arizona, publicado no Astrophysical Journal Letters, propõe que a Lua pode ter se formado em apenas cinco horas após o impacto de Theia com a Terra, e não em um processo lento. A autora principal, Adeene Denton, explicou: "Tudo depende da temperatura que a Terra e Theia tinham antes da colisão. O impacto poderia destruir Theia e produzir um grande disco de detritos que eventualmente formaria a Lua. No entanto, quando uso os mesmos parâmetros do modelo de impacto original, forma-se uma Lua praticamente intacta em cerca de cinco horas".

Além disso, Dirk Schulze-Makuch, da Universidade Técnica de Berlim, sugeriu que a Lua pode ser composta em parte por material perdido de Mercúrio.

Vozes da missão

Os cientistas da ESA se mostraram entusiasmados. Geraint Jones, cientista principal do projeto, classificou o momento como "um momento brilhante". Santa Martínez Sanmartín, diretora da missão, destacou: "O quão pequeno é Mercúrio e ainda assim abriga alguns dos maiores mistérios do nosso sistema solar". E acrescentou: "Pela primeira vez na exploração espacial, vamos levar duas naves espaciais às proximidades do planeta e colocá-las em órbita".

Por sua vez, Ignacio Tanco, chefe de operações, comparou o desafio a "trabalhar com um forno de pizza muito quente aceso bem nas costas". Johannes Benkhoff, cientista do projeto, explicou a anomalia química do potássio e do tório: "O potássio evapora muito rapidamente em um ambiente quente, enquanto o tório sobrevive até a temperaturas muito altas. Mas em Mercúrio vemos muito mais potássio do que se esperaria".

Finalmente, Frank Budnik, responsável pela dinâmica de voo, esclareceu por que a missão tomou uma rota tão longa: "Pode-se chegar a Mercúrio mais rápido se tomar uma rota direta. Mas o problema é que queremos nos inserir em uma órbita em relação a Mercúrio. É preciso levar a nave espacial à mesma velocidade que Mercúrio, e essa transferência requer muita energia".

Com a separação do MTM, a BepiColombo inicia a reta final de sua jornada. Em menos de três meses, a nave se tornará a primeira a orbitar Mercúrio com dois orbitadores científicos, abrindo uma nova era na exploração do planeta mais próximo do Sol.