Um 'Super El Niño' no horizonte
O fenômeno climático El Niño já está entre nós, mas seu verdadeiro impacto na América do Sul é esperado com maior intensidade para o segundo semestre de 2026. Os cientistas o classificaram como um 'Super El Niño', com aquecimento de 1,8 °C no Pacífico central, e os modelos meteorológicos projetam eventos extremos até 2027.
Diante desse cenário, a Argentina se prepara para uma eventual contingência climática extrema. A chegada do El Niño motivou a criação de um sistema nacional de monitoramento e resposta sanitária que integra software de análise geoespacial, deslocamento flexível de hospitais móveis e coordenação federal, com o objetivo de antecipar riscos e intervir em tempo real nas zonas mais vulneráveis.
Uma central de monitoramento com tecnologia de ponta
A nova estratégia, impulsionada pela Agência Federal de Emergências em articulação com o Ministério da Saúde da Nação, foi anunciada a um grupo de jornalistas na sede do ministério. O núcleo do sistema é uma central de monitoramento instalada dentro da Direção Nacional de Emergências, que combina coleta de dados, análise cartográfica e coordenação interprovincial.
'O que fizemos foi criar uma central de monitoramento dentro da Direção de Emergência, onde adquirimos quatro softwares que nos permitem, três deles, coletar informações, e essas informações podem ser transformadas em dados dentro do quarto software, que nos permite fazer análises não em planilhas de cálculo, mas diretamente em mapas com georreferenciamento para uma atenção sanitária mais rápida e melhor', explicaram técnicos do Ministério.
Essa abordagem permite visualizar a situação sanitária e os recursos disponíveis em tempo real, facilitando a tomada de decisões e a distribuição eficiente de meios diante de emergências. O sistema se apoia na interconexão de todas as províncias, para que cada uma possa carregar dados e acessar as análises oferecidas pela plataforma.
Hospitais móveis: a experiência de Bahía Blanca
O deslocamento operacional em campo foi completamente reformulado. O sistema contempla três escalas de intervenção: patrulhas sanitárias móveis, postos avançados de estabilização e hospitais modulares de média e baixa complexidade. Esses dispositivos podem ser instalados de forma escalonada, conforme a magnitude do evento e a demanda.
A experiência nas inundações de Bahía Blanca (março de 2025) ilustrou o funcionamento do novo modelo. O hospital móvel ERMEH (Equipe de Intervenção Médica Extra-Hospitalar) absorveu 90% da demanda, permitindo que o hospital de alvenaria mantivesse sua capacidade para casos de alta complexidade. Foram atendidas 3.500 pessoas e apenas 35 pacientes foram transferidos.
O ERMEH, doado em 2022 pelo Comando Sul dos Estados Unidos, pode ser instalado em 4 horas e conta com 60 leitos de internação, 4 de choque e 4 de terapia intensiva. Sua manutenção custa $5,6 milhões por dia.
Tecnologia e antecipação
O sistema monitora o ROI (medição da temperatura do oceano) e o SOI (índice atmosférico) para detectar padrões semelhantes aos de grandes episódios anteriores, como os de 1982-83, 1997-98 e 2016-17. Os impactos do El Niño são previstos com horas de antecedência, e os mapas de simulação permitem identificar hectares potencialmente inundáveis, população afetada e recursos disponíveis.
A plataforma Virtual SICOM introduz um sistema colaborativo entre províncias, permitindo articular recursos e planejar reforços conforme a magnitude do evento. O sistema também incorpora a dimensão epidemiológica: permite georreferenciar pacientes, antecipar surtos, facilitar a aplicação de vacinas e controlar vetores.
Zonas de impacto e preparação
Na Argentina, o El Niño promete castigar com inundações a província de Buenos Aires, o nordeste (Mesopotâmia, Chaco, Formosa e Santa Fé), o norte (Jujuy e Tucumán) e partes da cordilheira patagônica. As precipitações aumentam pelo menos 60% e são esperados chuviscos de 300 a 500 mililitros/hora que podem produzir deslizamentos e desastres em 30 minutos.
Os porta-vozes do Ministério da Saúde negaram limitações devido aos cortes de pessoal no Serviço Meteorológico Nacional, que reduziu sua capacidade operacional em 30%. 'Ninguém, em nenhum lugar do mundo, tem todos os elementos para responder totalmente a uma catástrofe', enfatizaram, mas garantiram: 'Contamos com a primeira linha de emergência'.