A CNV aprovou a incorporação de 18 novos Cedears ao mercado local. A partir de setembro, investidores poderão operar ações de gigantes da tecnologia como Dell e SK Hynix, mas também ETFs que seguem os preços da soja e do milho em Chicago, uma oportunidade histórica para o agronegócio.

O mercado de capitais argentino se prepara para uma expansão sem precedentes. A Comissão Nacional de Valores (CNV) aprovou a incorporação de 18 novos Cedears (Certificados de Depósito Argentinos) que começarão a ser negociados na Bolsa de Buenos Aires a partir de 2 de setembro de 2026.

A iniciativa, liderada pelo Banco Comafi como entidade emissora, inclui 13 ações de empresas líderes globais e 5 ETFs (fundos negociados em bolsa). Entre estes últimos, destacam-se dois instrumentos que acompanham a evolução dos preços internacionais da soja e do milho, uma novidade que pode mudar as regras do jogo para o setor agroexportador.

O que são os Cedears e por que são importantes?

Os Cedears são certificados que permitem investir em ações de empresas estrangeiras sem necessidade de abrir uma conta no exterior. Cada Cedear representa uma porcentagem de uma ação subjacente (por exemplo, 1/34 de uma ação da KLA Corporation). Eles são negociados em pesos argentinos, o que também oferece uma cobertura natural contra a desvalorização da moeda, já que seu valor acompanha a cotação internacional e a taxa de câmbio implícita.

Com esta nova aprovação, o mercado local amplia sua oferta para mais de 400 instrumentos, consolidando a Argentina como um dos mercados com maior variedade de ativos internacionais na região.

As 13 novas ações disponíveis

EmpresaTickerRatioSetor
KLA CorporationKLAC34:1Semicondutores
SK HynixSKHY25:1Memórias DRAM/NAND
Dell TechnologiesDELL74:1Servidores e TI
Western DigitalWDC92:1Armazenamento de dados
GE VernovaGEV180:1Energia e redes
Talen EnergyTLN63:1Geração elétrica
Morgan StanleyMS41:1Banco de investimento
Interactive BrokersIBKR17:1Plataformas de negociação
WelltowerWELL48:1REIT de saúde
PrologisPLD29:1REIT de logística
LindeLIN102:1Gases industriais
Sherwin-WilliamsSHW69:1Tintas e revestimentos
NateraNTRA51:1Diagnóstico genético

Por que são relevantes? A seleção não é por acaso: empresas como Dell e Western Digital se beneficiam diretamente do boom da inteligência artificial, enquanto GE Vernova e Talen Energy aproveitam a crescente demanda elétrica por centros de dados. Já Morgan Stanley e Interactive Brokers representam o setor financeiro global, e Prologis e Welltower oferecem exposição a imóveis.

Os 5 ETFs que chegam ao mercado

FundoTickerRatioDescrição
JPMorgan BetaBuilders CanadaBBCA20:1Ações canadenses (bancos, energia, mineração)
JPMorgan BetaBuilders Developed Asia Pacific ex-JapanBBAX13:1Mercados de Austrália, Hong Kong, Singapura
iShares S&P GSCI Commodity-Indexed TrustGSG6:1Cesta diversificada de commodities
Teucrium Corn FundCORN4:1Futuros de milho (Chicago)
Teucrium Soybean FundSOYB5:1Futuros de soja (Chicago)

A grande novidade são os ETFs de grãos: CORN e SOYB replicam o comportamento dos futuros de milho e soja no mercado de Chicago (CBOT). Com rendimento aproximado de 15% em 12 meses para o milho e mais de 20% para a soja segundo dados preliminares, esses instrumentos oferecem uma forma acessível de investir em commodities sem precisar operar futuros diretamente.

Detalhes-chave dos ETFs agrícolas

CORN (Teucrium Corn Fund) distribui sua carteira em três contratos futuros: aproximadamente 35% para dezembro de 2026, 30% para março de 2027 e 35% para dezembro de 2027. Já o SOYB (Teucrium Soybean Fund) mantém estrutura semelhante, com 35% para novembro de 2026, 30% para janeiro de 2027 e 35% para novembro de 2027.

Contexto do mercado agrícola

A chegada desses instrumentos coincide com um momento favorável para o agronegócio. Segundo dados da Bolsa de Comércio de Rosário:

  • Os preços da soja subiram 20% em 2026, enquanto o milho avançou 13%.
  • A demanda chinesa por soja argentina passou de 7% para 48% dos compromissos para a safra 2026/27, equivalente a 5,69 milhões de toneladas.
  • A colheita argentina 2025/26 atingiu 51,5 milhões de toneladas de soja e 70,5 milhões de toneladas de milho, com recorde de exportações em julho.
  • Para a safra 2026/27, projeta-se 48 milhões de toneladas de soja e 66 milhões de milho.

O mercado futuro local também marcou um marco: 89,6 milhões de toneladas negociadas em futuros e opções durante 2025, um aumento de 35% em relação ao ano anterior. Isso demonstra o crescente interesse por ferramentas de hedge.

O que isso significa para os investidores?

Para produtores e exportadores, esses Cedears oferecem uma alternativa de hedge que não exige gerenciamento de garantias ou margens como nos futuros. Além disso, por serem negociados em pesos, permitem uma dupla proteção: o preço do grão e a taxa de câmbio.

No entanto, é importante notar que eles não são compatíveis com o MULC (Mercado Único e Livre de Câmbio) para pessoas jurídicas, e seu preço depende tanto do ETF em dólares quanto da taxa de câmbio implícita na cotação do Cedear.

Perspectivas futuras

Segundo projeções do USDA, os estoques finais de milho nos Estados Unidos serão reduzidos, o que pode sustentar os preços. Já a oferta de soja deve ser maior. Fatores climáticos e geopolíticos (como o conflito Rússia-Ucrânia ou um possível fechamento do Estreito de Ormuz) também influenciarão a dinâmica das commodities.

Dica do editor

Antes de investir, consulte seu assessor financeiro. Os Cedears de ETFs de grãos são uma ferramenta interessante, mas seu valor pode ser volátil e não replica exatamente o preço do grão no mercado local.

Fonte: Imago