Um acordo que agita os mercados
No 28 de agosto de 2026, as autoridades venezuelanas e a administração dos Estados Unidos anunciaram um acordo petrolífero histórico que já tem efeitos nos mercados financeiros. Os títulos soberanos da Venezuela com vencimento em 2027 subiram para 54 centavos por dólar, perto do maior nível em quatro meses, segundo dados da Bloomberg. A expectativa de uma reestruturação da dívida que pode superar US$ 200 bilhões (até US$ 229 bilhões, segundo estimativas da VanEck) impulsiona o otimismo dos investidores.
O pacto prevê a exploração de mais de 20% das reservas da Venezuela, as maiores do mundo, com 303 bilhões de barris. Em troca, a Venezuela cede aos EUA, por 100 anos, os direitos de 17 campos com reservas estimadas em 65 bilhões de barris.
Pontos-chave do acordo
- Empresa operadora: North American Blue Energy Partners (NABEP), controlada pelo empresário venezuelano Alejandro Betancourt, investigado na Espanha e na Suíça por lavagem de dinheiro e desvio de fundos da PDVSA.
- Participação estatal: O Escritório de Capital Estratégico do Departamento de Defesa dos EUA terá participação na NABEP e garantirá a compra de petróleo a preço de custo.
- Investimento anunciado: US$ 100 bilhões.
- Produção atual: 1,2 milhão de barris por dia (bpd), menos da metade do que era extraído em 1998.
Reações divididas
A presidenta interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, garantiu que o acordo aumentará "consideravelmente" a produção de petróleo. Por sua vez, o presidente dos EUA, Donald Trump, prometeu que as reservas petrolíferas do país serão duplicadas, reduzidas pela guerra contra o Irã a um nível não visto desde 1983. O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, disse que Washington quer "muito investimento" americano na Venezuela.
No entanto, as críticas não demoraram a chegar. Rafael Ramírez, ex-ministro do Petróleo e ex-presidente da PDVSA, classificou o acordo como "prejudicial" e alertou que ele cede a soberania sobre mais de 23% das reservas. "Um governo de transição não deveria tomar decisões tão importantes", afirmou, e chamou a NABEP de "empresa de fachada" sem experiência no setor.
O economista Asdrúbal Oliveros considerou "prematuro avaliar o acordo como se já fosse uma realidade", apontando que faltam detalhes sobre arquitetura contratual, garantias, regime fiscal e compromissos de investimento. A líder da oposição María Corina Machado fez um alerta duro: "Os inimigos dos Estados Unidos na Venezuela estão hoje em Miraflores".
Contexto: uma intervenção que mudou tudo
Este acordo se insere em um cenário complexo. A intervenção militar dos EUA na Venezuela em 3 de janeiro de 2026 e a ordem executiva de 9 de janeiro que canaliza as receitas do petróleo para um banco do Tesouro americano (com US$ 16,2 bilhões acumulados até julho pela venda de 222,7 milhões de barris) são antecedentes-chave. Além disso, em janeiro de 2026, foi revogada a lei do petróleo de 2002 e aprovada uma nova lei que renuncia ao controle da produção, processamento e comercialização.
A produção da PDVSA, que chegou a 3,7 milhões de bpd antes do chavismo e atingiu um mínimo histórico de 400 mil bpd em 2020, hoje está em 1,2 milhão de bpd. A meta é alcançar 1,5 milhão de bpd em um ou dois anos, e a Jefferies estima que pode chegar a 2 milhões de bpd em cinco anos.
O futuro da dívida
A reestruturação da dívida venezuelana é um dos temas mais esperados pelos mercados. A VanEck estima cortes de dívida que podem variar entre 26% (se a oposição governar) e 83% (se houver continuidade política). Enquanto isso, a Chevron planeja investir US$ 7 bilhões em cinco anos para duplicar sua produção, e a Eni também anunciou planos de aumento.
O acordo, que promete transformar o mapa energético global, continua gerando debate. Enquanto alguns o veem como uma oportunidade histórica para recuperar a indústria petrolífera venezuelana, outros alertam para suas implicações legais e soberanas. O certo é que os mercados já estão votando com seus dólares.